23 outubro 2010

3o.Capítulo do Livro - Atentendo a pedidos

Só para aguçar mais a curiosidade e atendendo a pedidos, segue o terceiro capítulo do livro:

Capítulo 3 – A Busca e a descoberta

Renata acordou de um salto. Olhou no relógio, ainda enxergando embaçado e viu, com dificuldade, uma e sete da manhã. Ela se senta na cama, esfregando os olhos e ajeitando seus cabelos longos, passando um pouco da altura dos ombros e bem cuidados, tingidos de loiro impecavelmente mês a mês. A namorada de Fabrício, que não tinha noção do que acontecera com ela, olha de um lado para outro em busca do seu celular. Repara que ele está bem perto dela e o pega para saber o que está acontecendo. O telefone chama várias vezes até cair na caixa postal. Renata se levanta, ainda tonta e vai até o banheiro. Ela joga uma água no rosto e liga novamente. De novo, caixa postal após vários toques. Preocupada, ela decide ligar para sogra.
Dona Gabriela, mãe de Fabrício, é uma mulher de personalidade forte. Já com idade por volta dos sessenta anos, que ela não falava para ninguém, ela dividia seu tempo que tinha como aposentada traduzindo livros. Para se distrair, Gabriela gostava de sair com as amigas, jogar cartas e beber um bom vinho. Mas, coincidentemente, ela não dormira aquela noite. Estava inquieta. E, quando o telefone tocou, ela estava na sala, com um caderno na mão olhando para o nada e fumando um cigarro. Cigarro esse que ela acendeu depois de dez anos depois de ter parado. Ao primeiro toque do telefone seu coração gelou. Ela passou as mãos em seus cabelos curtos, mas volumosos, acobreado que ela também fazia questão de tingir a cada quinze dias, levantou-se e foi até o aparelho.
-- Alô? – disse ela temendo, mas tentando manter a calma.
-- Dona Gabriela, aqui é a Renata, tudo bem? Desculpe o adiantado da hora, mas estou preocupada...
-- O que aconteceu? – perguntou Gabriela se sentando no sofá.
-- Não sei exatamente, mas não consigo achar Fabrício. Marcamos uma viagem hoje, mas até agora ele não apareceu, não ligou, não respondeu minhas mensagens e também não atende o telefone.
Gabriela olhou para o caderno que, agora, estava em cima do sofá.
-- Quando foi a última vez que você falou com ele?
-- Trocamos uma mensagem de manhã... Foi tudo. Já tentei ligar no escritório dele também, mas ninguém atende.
Gabriela suspira no telefone.
-- Você já tentou com algum dos amigos?
-- Ainda não... Meu primeiro impulso foi ligar para a senhora.
-- Filha, faz o seguinte... Tenta falar com um dos amigos dele... Aí você me liga em seguida...
-- Tudo bem, vou fazer isso...
-- Eu vou tentar ligar daqui.
Mas Gabriela não ligou. Ela simplesmente desligou o telefone e olhou para o caderno, respirando fundo e fechando os olhos, como se estivesse desejando algo. Na verdade ela estava.

Renata pega seu telefone e começa a pensar em quem poderia estar com Fabrício. Pensa por mais um instante e tem uma idéia. Consulta sua agenda e disca. O número chama várias vezes e cai na caixa postal.
-- Mas que merda! – desabafa ela.
Ela tenta novamente. Uma mulher atende, com a voz um pouco abafada.
-- Alô?
-- Alô? Esse telefone é do Victor? – perguntou Renata.
-- Sim... Quem fala?
-- Aqui é a Renata, namorada do Fabrício, amigo dele.
-- Renata? É a Amanda! Aconteceu uma coisa horrível!
Renata sente um frio percorrer sua espinha nesse momento.

Não demorou muito para Renata chegar à casa de Amanda e encontrar viaturas de polícia, ambulância e alguns curiosos aglomerados. Ela passa devagar por eles, avisa para um dos policiais que é amiga da dona da casa e encontra Amanda, enrolada em uma manta, recebendo curativos no rosto, que estava roxo com hematomas e chorando muito.
-- Amanda... O que foi que aconteceu?
Ela conta tudo o que aconteceu. Renata sente um mix de alívio e pavor. Alívio, pois Fabrício não estava envolvido, nem ao menos foi citado. Pavor, por saber tudo o que um homem pode fazer em um momento de fúria. Mas Amanda não contou a história por completo. Ela não mencionou que Victor havia pegado ela com outro. Fato que também não deixaria a história menos assustadora. Pelo contrário.
-- Que história horrível, Amanda! E agora?
-- Os policiais estão olhando pela casa, averiguando não sei o que, e daqui a pouco me levam para o hospital.
-- Você sabe se, antes disso tudo, Fabrício estava com ele?
-- Não sei... Como te disse, ele sumiu o dia inteiro e apareceu com aquela cara... – ela começa a chorar. – Não consigo nem lembrar.
Um homem se aproxima e diz que Amanda já pode acompanhar um dos oficiais.
-- Ok! Amanda, se você precisar de qualquer coisa me liga. Eu iria com você, mas preciso saber onde Fabrício se meteu! Estou preocupada. Eu vou até a casa da mãe dele agora.
-- Sem problemas... Eu entendo... Pode deixar... Qualquer coisa eu te ligo... Mas, se precisar, me ligue também!
Renata pegou o carro e pegou o caminho de volta para São Paulo em direção a casa de sua sogra. No caminho ela liga para Gabriela que atende friamente.
-- Descobriu alguma coisa?
-- Nada... Mas, coincidentemente, algo horrível aconteceu com um de seus melhores amigos. Mas eu lhe conto assim que chegar ai.
-- Está vindo para cá? Ótimo! Tem algo que você precisa ver.

Gabriela abre a porta para Renata, vestindo seu hobby com uma expressão de cansaço e derrotismo no rosto. Elas se abraçam e a mãe de Fabrício pede para que Renata entre.
-- A senhora está sabendo alguma coisa? Não parece tão preocupada como estou... – disse Renata se sentando.
-- Quer um chá? – ofereceu a sogra já lhe servindo uma xícara.
-- Ok... É isso, não é? A senhora sabe alguma coisa!
-- Não, minha filha – começou ela dizendo se sentando no sofá e bebericando um pouco do chá. – Eu não sei... Mas tenho medo do que possa ser. – conclui Gabriela lançando um olhar para o caderno que estava em cima da mesa de centro.
-- O que é isso? – perguntou Renata intrigada.
-- Um diário. Um diário que Fabrício mantinha quando era adolescente.
Renata o pega e começa a passar os olhos sem prestar muita atenção.
-- Eu descobri esse diário, por acaso, quando ele decidiu se mudar daqui. Eu me segurei para não ler, mas algo me dizia para fazer isso... É por isso que estou calma. Intrigada e desejando que não seja o que estou pensando. Mas nessa vida, tudo que você planta, um dia você colhe.
-- Tá, mas não estou entendo... Aonde a senhora quer chegar?
-- Fabrício já falou do pai dele para você?
Renata estranha a pergunta. Para ela, totalmente fora do contexto. Mas, parando para pensar um pouco, percebe que seu namorado nunca havia lhe falado do seu pai.
-- Realmente... Acho que uma vez tentei tocar no assunto... Quer dizer, não só uma vez, mas várias vezes, mas ele sempre mudava de assunto. Por quê?
-- Esse diário... – começou Gabriela repousando a xícara no pires e colocando tudo em cima da mesa de centro. Cruzou as pernas, respirou fundo, ajustou seu hobby e continuou. – Esse diário é uma das coisas mais aterrorizantes que eu já li em toda minha vida. Fabrício relata nesse diário todo o ódio que tinha pelo pai. Realmente, meu marido nunca foi uma flor que se cheire... Ele era um homem detestável. Confesso que já pensei em matá-lo várias vezes. Pensei em pegar Fabrício e sumir... Mas quem sumiu foi ele... Meu marido. Sem vestígios. Sem rastros... Nem uma pista. Chamei a polícia para não ficar com dor na consciência. Preocupada como Fabrício iria reagir um dia quando soubesse que o pai sumiu sem nem dar tchau. O mais estranho é que senti alívio com esse desaparecimento. Mas, ao mesmo tempo, preocupada com meu filho. O tempo foi passando e percebi que Fabrício nunca se quer perguntou do pai. Eu tinha um filho que ficava trancado no quarto, mal falava comigo, nunca o vi sorrindo, nunca o vi trazendo amigos... E, de uma hora para outra, eu tinha outro filho. Sorridente, com amigos... Essa casa nunca foi tão alegre... Depois que aquele bastardo se foi.
Gabriela pára por um instante. Acende um cigarro. Dá uma bela tragada.
-- Faz séculos que não coloco um cigarro na boca. Puta que o pariu, com o perdão da palavra, mas como isso me fazia falta.
-- Dona Gabriela... Desculpe... Estou tentando entender o que isso tudo tem a ver... A senhora acha que o pai de Fabrício voltou?
-- Fabrício escreveu nesse diário toda a raiva que sentia do pai. Dia após dia... Até o dia que ele relata ter feito um pacto. E, coincidentemente, a data desse pacto é o mesmo do dia que o pai dele sumiu. Fabrício teria feito um pacto com o diabo.
-- Oi?! – exclamou Renata. – A senhora acha... – ela cai na gargalhada.
-- Leia as cinco últimas páginas e você vai ver. – disse Gabriela calmamente tragando seu cigarro.
Renata começou a ler. Realmente, a forma como estava escrito aterrorizaria qualquer pessoa. Mas ela não queria acreditar naquilo. Algo estava errado.
-- Dona Gabriela, ele era adolescente... Esse tipo de coisa não existe.
-- Eu sou mãe... Mãe sente... E ele é meu filho único. Como disse, desejo que isso seja tudo loucura da minha cabeça... Mas meu coração... Esse me diz outra coisa.
-- Eu vou até a casa dele... Preciso descobrir alguma coisa... De repente ele está lá dormindo. – disse Renata se levantando e já colocando sua bolsa no ombro.

O apartamento de Fabrício sempre foi imaculado. Limpo, organizado, móveis combinando, sempre no melhor estilo. Renata adorava aquele lugar. E, chegando lá, ela se sentiu como invasora, pela primeira vez, no apartamento do próprio namorado. O apartamento estava escuro. O celular de Fabrício estava na mesa de centro apitando, indicando mensagem ou ligação perdida. Ela pega o aparelho e se assusta com um barulho vindo da cozinha.
-- Quem está aí? Fabrício?!
Quem aparece é Lú, vestida com um tubinho preto, saltos altos da mesma cor, segurando duas taças de vinho.
-- Quem é você? – se assustou Renata, caindo no sofá sentada.
-- Estava esperando você... Prazer, meu nome é Lú.
-- E você é quem?
Lú entrega uma das taças para Renata a recusa. Lú, então, a coloca sobre a mesa de centro.
-- Uma pena você não aceitar. Esse vinho é ótimo.
-- Não quero saber do vinho. O que você sabe do Fabrício. E quem é você, garota?!
-- Meu nome é Lú, como eu disse. Sou uma colega de trabalho do Fabrício.
-- Colega de trabalho? Ele nunca me falou de você? E o que você está fazendo no apartamento dele?
-- Ele me pediu que viesse aqui... Fabrício é um funcionário aplicado. Nosso chefe... – ela parou por um instante para tomar um gole de vinho. - ... pediu para que ele viajasse para fechar um negócio. Ele não tinha como recusar. Mas, o coitado saiu com tanta pressa que esqueceu o celular aqui, não conseguiu te avisar. Então, me pediu que viesse até aqui te esperar.
Renata não estava entendendo nada daquela conversa.
-- Isso é muito estranho. Não tem nexo. Ele podia me ligar seja lá de onde fosse.
-- Onde ele está não tem como ligar. Ele está realmente muito ocupado. O que ele não me disse é que você era tão bonita.
-- Espera aí, você vem até a casa do meu namorado, com esse papo sem pé nem cabeça, fica por aqui dizendo que estava me esperando... O que está acontecendo aqui, hein? Você tem alguma coisa com o pai dele? Vocês são amantes?
Lú sorri sarcasticamente.
-- Como você é tola. Cria tanta coisa nessa cabecinha. Relaxa! Seu namorado está bem... Quanto menos você esperar ele está de volta! Só estou aqui fazendo um favor. Tome seu vinho.
Renata olha para a taça e toma o vinho em um só gole.
-- Que noite é essa, gente?
-- Não tem nada demais... A gente que costuma transformar um probleminha em um problemão. – disse Lú tomando mais um gole de vinho, mantendo os olhos no corpo de Renata. – Quer mais vinho.
-- Ai, quer saber, aceito! Por que esse filho da puta não me falou isso! To aqui morrendo de preocupada! Ai, meu Deus! Pior, ele não sabe o que aconteceu com o amigo dele.
-- O que aconteceu? – perguntou Lú servindo mais vinho.
-- Parece que o cara ficou louco, bateu na mulher, tentou matar ela e depois se matou.
-- Que coisa horrível...
-- Pois é... Até preciso ligar pra ela para saber se está bem.
Renata tentou pegar o celular, mas Lú a impediu gentilmente.
-- Esquece ela, por enquanto. Tente relaxar... Você se estressou demais. Já é tarde.
Renata sentiu algo que nunca sentira. Quando a mão de Lú segurou a sua, ela teve uma sensação de uma carga de eletro choque, leve, porém gostoso, passando por todo seu corpo.
-- Você está muito tensa, Renata. – Lú se pôs atrás de Renata e começou a lhe fazer uma massagem nos ombros. – Fabrício fala muito de você. Ele realmente te ama. Não pense que ele está te traindo... Tudo que ele faz é pensando em você.
-- Sério? – perguntou Renata achando ótima a massagem. – Nossa você tem uma mão boa para massagem.
-- Você não viu nada... – disse sussurrando. – Quer mais vinho?
Renata aceitou, e tomou mais um gole contando a história que ouviu de sua sogra.
-- Sabe, nunca gostei muito da mãe do Fabrício... Sei lá, ela estranha, seca, fria, esquisita. Falei pra ela do sumiço do filho e ela falou como se fosse a coisa mais natural do mundo. – ela toma mais um gole. – E me mostra um diário que Fabrício escreveu quando era um moleque... Tipo, o que tem de importante nisso?
Lu pega sua taça de vinho e se senta na mesa de centro, ficando de frente com Renata.
-- E o que dizia esse diário?
-- Ai... besteiras! Que Fabrício tinha um ódio incrível do pai... E que fez um pacto com o diabo para que ele sumisse. Segundo dona Gabriela, a dona da verdade, a data é o exato dia em que o marido, coincidentemente, pai de Fabrício, sumira... – já se mostrando um pouco mais bêbada do que de costume, Renata continuou a falar. – Eu acho que ela quer me afastar do Fabrício. Ela tem uma adoração pelo filho que nunca vi. Ele gosta dela, claro, afinal é mãe dele... Mas parece que ela tem ciúmes de qualquer um que se aproxime dele. Deve ser porque é filho único, sei lá... Mas nunca fui com a cara dela... Suporto por suportar, pois gosto do filho dela.
-- As sogras sempre são um problema nas nossas vidas... – disse Lu rodando a taça de vinho na mão. – Mas me conte mais... Onde está esse diário?
-- Está com aquela velha. Achei ridículo da parte dela... – Renata boceja. – Nossa, está me dando um sono...
-- Relaxa, minha querida, dorme um pouco, você está cansada.
Renata deita-se no sofá e cai no sono imediatamente.
-- Pela sua preciosa informação, vou te manter viva... Vai que você queira passar para o nosso lado um dia... – disse Lu se transformando em Baltazar.
Ele deixou o apartamento e logo em seguida, um homem aparece na janela olhando para Renata.

Não demorou muito para Baltazar chegar a casa de Gabriela. Ela já estava quase adormecendo quando acordou, assustada, com alguém batendo na porta. A mãe de Fabrício se levanta, coloca o diário de seu filho em cima da mesa de centro, coloca seus óculos e vai até a porta imaginando que fosse Renata.
-- Pois não?
-- Dona Gabriela?
-- Sim... Você quem é?
-- Quero falar sobre seu filho...
-- Sabe alguma coisa dele? – indagou ela sem abrir a porta por inteiro.
-- Sei tudo sobre seu filho... Mas fiquei intrigado sobre um tal diário...
Gabriela notou algo estranho no olhar daquele homem. Para ela, não era um homem comum.
-- Você é um deles, não é?
-- Posso entrar? – perguntou ele já empurrando a porta, não deixando alternativa para Gabriela. Ela se afasta da porta, com os olhos arregalados. – Não precisa ficar tão assustada. Só quero conversar. – concluiu ele fechando a porta e acenando para que Gabriela se sentasse.
Ela obedece com os olhos fixados em Baltazar. Ela nunca imaginou receber um demônio em sua casa.
-- Muito bem... O que sabe do meu filho? O que fizeram com ele?
Baltazar se senta em frente a Gabriela, em uma poltrona verde musgo que ele achou confortável. Cruzou as pernas e notou o diário de Fabrício em cima da mesa.
-- Seu filho está bem... Como a senhora bem sabe... – disse olhando para o diário. - ...Ele está cumprindo a parte dele do trato. Já não posso dizer o mesmo do seu marido... Este sim, posso dizer, está pagando o preço que merece.
-- Como ele está e o que estão fazendo com ele não me interessa... Quero saber do meu filho! Ele sim, é a única coisa que importa!
-- Fabrício está ótimo! Ele vai ter um longo trabalho pela frente, mas tenho certeza que irá desempenhar bem... Na verdade, eu não tenho certeza, mas meu chefe, sabe como é... Não posso contrariá-lo... Se ele acha que um ser humano pode fazer esse trabalho... Mesmo porque, não restou alternativas.
-- Por que não fez você esse trabalhou? Seja lá ele qual for!
-- Existem umas estúpidas regras que temos que seguir... E para esse trabalho que foi designado para o seu filho fazer, somente um ser humano, que tivesse sua alma vendida, poderia fazer. Sabe como é... Toda regra há uma exceção. Sempre há um jeito de se burlar uma lei.
-- Ok, então... E se eu propor fazer esse tal trabalho no lugar do meu filho? Eu faço por ele e vocês o deixam livre!
Baltazar gargalha.
-- Não é tão simples como parece minha cara. Você me parece muito inteligente. Informada. Segura de si. Escolheu sua vidinha e tem vivido do jeito que sempre quis. Mas, mesmo assim ainda reclama, não é mesmo? Por que ser humano é tão insatisfeito? Por que sempre reclamam de tudo, de todos! Eu não entendo vocês.
-- É nossa natureza, eu acho.
-- Vocês são desprezíveis!
-- O que você quer comigo?
-- O diário.
-- Para que?
-- Acho melhor isso ficar com a gente... Vai que isso acabe em mãos erradas e atrapalhe um pouco nossos planos. Não que isso vai ser, mas... só por garantia.
Baltazar pega o diário e começa a folheá-lo.
-- Seu filho parece que gosta de escrever... Escreve bem.
-- É... mas abandonou o ofício quando foi crescendo.
-- Uma pena...
-- Algo mais?
-- Acho que não... – disse Baltazar olhando em volta. – Isso é tudo. Foi mais fácil do que imaginava. Agora tenho outros assuntos a tratar. Obstáculos me irritam, sabe?
Ele se levanta, olha novamente a casa e vai até a porta. Antes de sair ele diz:
-- Tem uma bela casa, dona Gabriela.
Baltazar fecha a porta e desce a pequena escada em frente a casa. Alguns passos à frente e, de repente, a casa voa pelos ares em uma explosão que estilhaçou janelas dos vizinhos e disparou alarmes de dois carros que estavam estacionados em frente à casa.

Pouco tempo depois, ele já estava de volta ao apartamento de Fabrício. Encontra Renata exatamente como ele havia deixado. Dormindo. Baltazar então se transforma em Lú, se aproximando da garota.
-- Acho que mudei de idéia... Não estou nem um pouco afim de ter obstáculos na minha frente... Espere... – ela fareja, como um cão. – Tem alguém além de mim e essa garotinha aqui nesse apartamento. Revele-se! Eu ordeno.
Do quarto sai um homem, alto, cabelos pretos, olhos castanhos. Vestia calça preta, camiseta preta por dentro da calça e sapatos também da mesma cor. Ele olha para Lú e sorri de canto.
-- Olá, Baltazar!
-- Daniel! Não esperava encontrar um anjo nesse apartamento.
-- Por quê? Temos lugares específicos para irmos? Eu não sabia!
--Veio proteger a namoradinha de Fabrício?
-- Você já teve sua cota hoje, Baltazar.
Baltazar toma sua forma original.
-- É que quando começo, não consigo mais parar...
-- Mas eu lhe digo que parou por aqui!
-- Ela vai me dar problemas no futuro... E eu não gosto de obstáculos.
-- Nela você não toca! – disse Daniel com firmeza.
-- Uh! Que medo!
-- Experimenta!
Baltazar olha para Renata. Seus olhos ficam incrivelmente vermelhos. Parece ter sede pelo sangue dela. Quando ele tenta dar um golpe na garota, um escudo de cor azulada se coloca em sua frente a protegendo do ataque e fazendo com que Baltazar fosse lançado para o outro lado da sala.
-- Está mesmo disposto a proteger essa garota? Por quê? O que ela tem de especial? É ela, não é?
-- Vocês nunca irão descobrir quem é... E não, não é a Renata. A protejo porque é meu dever.
Baltazar se levanta. Ajeita seu terno e sua gravata dizendo:
-- Patético! Mas tudo bem! Não vou perder mais meu precioso tempo! Mas em breve nos encontraremos, Daniel! Isso você pode ter certeza!
-- Será um prazer!
Baltazar desaparece.
Daniel se abaixa e toca em Renata que acorda com um suspiro. Ela se senta e se depara com o anjo na sua frente, sem saber quem ele era.
-- Precisamos conversar! – disse Daniel. – Preciso da sua ajuda!

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