28 abril 2010

BRASIL X POLÍTICA X FUTEBOL

Esse ano o Brasil vai voltar seus olhos para quem? Para o próprio Brasil ou para África do Sul? Sim porque esse ano tem eleição... Mas também vai ter Copa do Mundo. Para quem o povo brasileiro irá dar mais importância? Para um? Para outro? Para os dois?
Bom, com certeza, começando a Copa, ninguém nem vai lembrar que política existe. Afinal é a chance do Hexa que, tenho por mim que não virá agora... De repente, prefiram deixar o título para a Copa do Brasil... We won't neve know!
Depois, começa a política... A briga entre PT x PSDB...
O Brasil está acomodado com sua situação econômica e financeira, mas esquece que outros problemas estão ai... O tal do bolsa família só serviu para aumentar a procriação de crianças e colocá-las em escolas que os professores mal sabem ensinar. Educação, no Brasil, é algo que se deixa para terceiro plano. A cultura disso tudo fez criar famílias que pensam primeiro em trabalhar, se der tempo, estudar... Sendo que a ordem natural seria o contrário, uma vez que com um base de estudo melhor, você tem um emprego melhor... Mas, no Brasil, quem se importa, não é mesmo? O importante é ter dinheiro no bolso, garantir o frango na mesa e a manicure do fim de semana. Por que mencionei manicure?Preste atenção nas entrevistas feitas com as mulheres que moram em favelas ou choram porque estão em condições precárias... Todas estão de unhas feitas!
O Brasil tem crescido de forma desordenada... E isso gera: FAVELAS! O Rio de Janeiro, que dizem ser lindo, só é lindo em postais. Que porra de lugar que vira cartão postal do Brasil para o mundo, onde você tem a recomendação de não andar com nada a mostra de valor e, principalmente, não confiar em taxistas e andar a noite na praia????? Isso é ser lindo? Isso para mim, é nojento!
Segurança, não existe! Viver em cidades em que você sai de manhã para trabalhar, sem ter a certeza se volta, ou se volta intacto, é revoltante! Não poder sair a noite porque pode ser assaltado. Dirigir sempre olhando os retrovisores para não ser surpreendido por bandidos... Tsc..tsc...tsc... Sem comentários!
Por causa da educação, a saúde sofre... Afinal, os médicos que aí estão, formados hoje, são péssimos! Sem formação nenhuma... Mal sabem dar um diagnóstico! E procurar uma segunda opinião pode lhe dar um nó na cabeça... Pois uma dor de gases no estômago, pode até virar câncer!!
Tudo efeito cascata...Efeito dominó! Mas para que se preocupar com educação se o presidente eleito é analfabeto? Agora temos dois candidatos que, na minha opinião é o pior e o menos pior! De um lado, uma pessoa que usou de "táticas" duvidosas durante a ditadura, e justifica de forma heróica seus atos... De outro, um homem sem muito carisma, sem muita segurança do que fala. Se formos analisar friamente, todos são da mesma corja! Mas, na minha opinião, colocar no poder uma pessoa com passado duvidoso e um que pelo menos tem uma experiência política explícita e conhecida para àqueles com memória, eu prefiro o menos pior.
Independente de quem seja, será que algum deles irá acordar e ver que tudo começa na educação? Será que um dia eles irão acordar que o Brasil tem área suficiente para abrigar povos de outros países, mas centralizam tudo em dois polos: São Paulo e Rio? Eu acho que não.... Quem sabe um dia! Ninguém irá questionar isso mesmo se o Brasil for Hexa! E também não irá questionar se não for....

16 abril 2010

PRIMEIRO CAPÍTULO DO MEU LIVRO

Publico aqui e agora o primeiro capítulo do livro que comecei a escrever... Sem título definitivo e sem dar muitos detalhes do que virá pela frente, só para saber como será avaliado. Como ainda está em processo, erros poderão ser cometidos...

Capítulo 1 – A Cobrança

Fabrício acordou aquela manhã se sentindo bem. O dia começou ensolarado, era uma sexta-feira e o fim de semana prometia ser ótimo, pois iria passar junto de sua namorada. Coincidentemente, o celular avisa que chegou uma mensagem. Era de Renata, sua namorada dizendo: “Finalmente, meu amor, um fim de semana para nós! Mal posso esperar! Te amo!”. Fabrício sorri e se levanta da cama num salto. Ele vai até o banheiro e entra de baixo do chuveiro... Estranhamente, se lembra de um fato que ocorreu na sua adolescência.
Depois que seu pai chegou em casa, há 17 anos atrás, arrombando a porta do seu quarto e o mandando sair para procurar emprego, Fabrício tomou uma decisão, iria fazer um pacto. Um pacto com o diabo. Naquela mesma noite, ele saíra de casa, sem rumo. Na época, colocou seu discman no bolso de seu moletom, ouvindo um rock pesado e andou pela cidade. Chegou em uma praça onde os jovens da época se encontravam e se sentou em um banco. Aumentou o volume e pensava em como um pacto com o diabo era feito. Ele não fazia idéia. Uma garota, da mesma idade de Fabrício na época, se aproximou sorrindo para ele e sentou-se ao seu lado. O garoto fechou o rosto e continuou olhando para o nada. Ela puxou o fone do ouvido dele e sussurrou:
-- Eu sei o que você quer e posso te ajudar.
Fabrício então tirou os fones de ouvido e desligou o discman.
-- Do que você está falando?
-- Você quer fazer um pacto, não é? Eu posso te ajudar...
-- Como você sabe disso? Quem é você?
-- Uma amiga... Acredite... Posso te ajudar...
-- Você é maluca! – disse Fabrício se levantando e saindo dali.
-- Você não quer se livrar do seu pai? – perguntou a garota quase gritando.
Fabrício parou na hora.
-- Já não está cansado de ouvir o chamar de vagabundo, de bichinha e de bater na sua mãe todos os dias quando chega bêbado em casa?
Fabrício olhou para trás. A garota já estava bem atrás dele.
-- Como você sabe dessas coisas? – indagou ele.
-- Não é isso que você realmente quer saber... O que você quer mesmo saber é “como”, não é? – Fabrício balançou a cabeça, timidamente, afirmativamente. – Então, vai confiar em mim?
A garota puxou Fabrício de volta para o banco. Foi então que o rapaz olhou para a garota e reparou que ela tinha o rosto pálido, olhos em tons avermelhados, cabelos negros, um batom escuro, combinando com uma forte sombra nos olhos. Suas roupas eram de roqueira, jaqueta de couro, botas até o joelho, saia xadrez e meias que iam até as coxas listradas em branco e preto.
-- Muito bem... Pare de olhar para as minhas coxas e preste atenção no que vou falar. Você quer se livrar do seu pai, não quer? Então eu posso te ajudar! Mas antes, você precisa assinar esse papel. – Ela puxou um papel de sua pequena bolsa. Era como um papiro antigo, escuro amarrado com uma fita vermelha. Ela tirou a fita e desenrolou o papiro.
-- O que é isso?
-- Seu pacto... Assinando isso você terá o pacto que você quer e seu pai irá sumir da sua vida... Lembre-se, nunca mais você vai ouvir ele dizendo que você é vagabundo, estranho, viadinho... E sua mãe, coitada, estará se livrando de levar uma surra todo os dias... Só depende de você.
Fabrício pegou o documento que estava escrito em uma língua totalmente desconhecida. Ele olhou para a garota que respondeu:
-- Não se preocupe... Não é você quem tem que entender... Você só precisa dizer que aceita e assinar.
-- Você tem uma caneta?
A garota tira da pequena bolsa uma pena e entrega para o rapaz. Ele segura na ponta e começa a assinar, ele sentiu a pena espetar seus dedos e viu, ao invés de tinta, sangue saindo da ponta e escrevendo seu nome. Era seu próprio sangue. Estranhamente, mesmo sentindo dor, ele não conseguia mais parar de assinar e, quando terminou, a dor sumiu e ele entregou a pena para a garota junto com o papiro.
-- Ótimo! – disse ela. – O pacto está feito. Não tem mais como voltar atrás...
-- Mas, não vou ter que dar nada em troca?
-- É claro, gatinho! Mas tudo terá sua hora.
Ela se levanta, guarda o documento na bolsa e sai andando.
-- Qual seu nome? – gritou Fabrício.
-- Pode me chamar de... Lu! – respondeu ela saindo com uma enorme gargalhada.

Fabrício, de volta do passado, balança a cabeça e se pergunta: “Por que fui me lembrar disso agora?”, enquanto tomava seu banho para sair para o trabalho.
Ao sair do chuveiro, Fabrício pega sua toalha e começa a se enxugar quando seu celular toca. Ele corre para o quarto, se enrolando na toalha e pega o aparelho. No visor, a chamada não foi identificada. Ele atende. Ninguém responde do outro lado da linha. Fabrício desliga e começa a se vestir. O celular toca novamente. De novo, o número de onde estão ligando não foi identificado e, mais uma vez, ninguém responde do outro lado da linha.
-- Mas que palhaçada a essa hora da manhã!

Momentos depois, Fabrício vai até a garagem do seu prédio e pega seu carro para ir trabalhar. Ele manobra e deixa o local entrando em uma avenida movimentada. Quando ele olha para o retrovisor, se assusta com a figura da garota que ele havia encontrado na adolescência, sentada no banco de trás do seu carro e quase bate o veículo. Ao olhar nada estava ali. “Devo estar ficando louco! Primeiro lembro disso anos depois... Agora estou vendo coisas... Ninguém merece!”. Ao parar no semáforo, vários pedestres começam a atravessar a rua. Entre eles, de novo, a garota, que atravessa calmamente olhando nos olhos de Fabrício que fica apavorado.
-- Isso só pode ser uma brincadeira!
Alguns pedestres entram na frente da garota que desaparece na multidão. O rapaz fica anestesiado. O semáforo abre e ele só se dá conta quando o carro de trás buzina para que ele siga em frente. Então, Fabrício segue seu trajeto até chegar no trabalho. Chegando lá, ele vai até o banheiro molhar o rosto, pois ainda se sentia chocado com o que vira. Ao olhar no espelho, ao invés de ver seu rosto refletido, ele vê suas costas. Assustado, Fabrício dá um salto para trás quebrando o suporte de toalhas preso na parede. Nesse momento, um de seus colegas entra e o vê no chão apavorado.
-- O que foi Fabrício! Aconteceu alguma coisa? – perguntou o colega que ficara assustado com o que vira.
Fabrício olha assustado para o colega e se levanta rapidamente.
-- Não... É que... Esquece! Hoje não acordei num bom dia...
-- Tem certeza... Não quer ajuda?
-- Não... Está tudo bem... Obrigado!
Fabrício sai do banheiro transtornado e segue direto para sua mesa. Ele esfrega os olhos e balança a cabeça na tentativa de acordar de um sonho ou algo semelhante. Olhando para os lados, vê apenas seu colega o olhando preocupado. “Bom, vamos trabalhar!”, pensou ele. Fabrício abre seu programa de emails que começa a processar. Vários emails começam a entrar em sua caixa com o mesmo assunto: “Hora da cobrança!”. Poderia ser um spam, pensou ele, tanto que sua primeira reação foi chamar o suporte para saber o que estava acontecendo com sua caixa de email. Fabrício explica o ocorrido e o rapaz do outro lado da linha avisa que irá bloquear o remetente das mensagens. Mas, as mensagens agora começaram a surgir em seu celular. O aparelho começou a sinalizar dezenas e dezenas de mensagens que não paravam de chegar com o mesmo assunto: “Hora da cobrança!”. Fabrício não pensou duas vezes e desligou o aparelho. Aquilo tudo estava deixando-o enlouquecido. Então, para arejar a cabeça, pegou um cigarro e se dirigiu para área de fumantes do edifício. Respirou fundo. Olhou para o céu que estava azul. Acendeu o cigarro e se sentou tragando lentamente. A sensação era que a fumaça que ele inalava e depois expelia, tirava para fora tudo o que ele sentia de ruim naquele momento. E, aparentemente, parece que funcionou.

Pelo resto do dia, tudo pareceu voltar ao normal. Não tiveram mais mensagens, nem emails, muito menos imagens refletidas ao contrário no espelho. E, assim, Fabrício terminou aquela sexta-feira que, parecera começar do jeito mais louco que ele podia imaginar, de uma maneira mais aliviada. Pelo menos, era o que ele achava.

Ao chegar em casa, Fabrício jogou suas coisas numa cadeira e se jogou no sofá, respirando fundo, tentando esquecer o dia que teve. Um louco dia por sinal. Ele olha para o teto e sente seus olhos ficarem pesados. Cada vez mais pesados até pegar no sono... Então, seu telefone toca. Ele se assusta, acorda num salto e tenta achar o aparelho. Nesse momento, a campanhia do seu apartamento toca. Por um momento, se sentindo tonto ainda, não sabe se atende o telefone ou a porta. Decidiu-se pela porta. Abriu e pediu um momento à procura do aparelho do celular que estava no bolso do seu paletó. Mal tinha reparado que a sua espera estava uma mulher alta, cabelos negros, compridos e lisos, com uma franja que quase lhe cobria os olhos grandes e de tons avermelhados. Sua pele branca como leite, contrastava com as roupas escuras que ela usava. Um vestido preto com um casaco curto por cima e uma bolsa em suas mãos. Ela não entra. Apenas o observa atendendo o telefone. Mas quem estava do outro lado da linha já havia desistido e, assim, ele dá atenção a mulher que o espera.
-- Me desculpe! – disse ele. – Você é quem?
-- Posso entrar? – perguntou ela com uma voz doce que saia de sua boca carnuda com batom estranhamente vermelho.
Sem saber o que fazer e ainda se sentindo desorientado do sono que tivera, Fabrício convida a estranha mulher para entrar. Ela entra, devagar, olhando o apartamento, com passos curtos que soavam a cada toque no chão de carpete de madeira. Ele, a convida para se sentar e oferece algo para beber. A mulher não aceita.
-- Certo... Então, quem é você e o que a traz até aqui?
Ela sorri enigmaticamente, coloca sua bolsa do seu lado, cruza os dedos de uma mão com a outra, inspira e começa a dizer docemente e vagarosamente:
-- Talvez você não se lembre de mim... Mas nos encontramos uma vez no passado.
Fabrício vê toda aquela lembrança tomar conta da sua mente de novo.
-- Isso mesmo... Eu sou aquela garotinha que você está se lembrando... Lembra-se que fizemos um pacto, não é mesmo? Aliás, não “nós”, mas “você”, assinou um pacto.
Ele não sabe o que responder. Se levanta, leva as mãos à cabeça e anda de um lado para outro.
-- Isso é típico... Odeio fazer essa parte da intermediação... Pessoas como você são comuns... Na hora da raiva fazem o que for preciso, mas... Depois... Nunca se lembram, não entendem...
-- Foi há muitos anos atrás... Eu era uma criança!
-- Mas sabia muito bem o que queria... Isso sabia! Acho que desde aquele dia, você não vê seu pai, não é mesmo?
-- Como você sabe?
-- Eu sei muita coisa de você, Fabrício! Afinal, eu fui a, digamos assim, a intermediadora do seu trato. Logo, eu tenho que saber tudo sobre você.
Fabrício começa a ficar apavorado. Anda de um lado para outro, ofegante.
-- Não é possível... Isso não existe... Foi só uma coincidência!
-- Ah, não foi não!
-- E o que você veio fazer aqui? O que quer de mim?
-- Bom, como eu disse, eu sou a intermediadora do negócio. Eu fui enviada para cobrar sua dívida. Lembra-se que te falei... Tudo tem seu preço... Nada vem de graça...
-- Tá, mas isso quer dizer o que? Eu vou morrer? Você vai me matar?
Finalmente ela se levanta e segura Fabrício pelos braços.
-- Acalme-se, bichinha! Você não foi homem para querer que seu pai desaparecesse? Agora terá que ser homem para pagar o que deve! – disse ela em tom ríspido e bem diferente daquela voz doce que iniciara a conversa. Logo depois ela volta ao tom original da conversa. – Eu vim aqui te buscar. Afinal, sua alma foi o preço e nós a queremos... Nós, não... ele, Lúcifer, você já deve ter ouvido falar.
Fabrício se senta, com falta de ar, entrando em desespero. Ela somente olha e sorri sarcasticamente.
-- Tome o tempo que precisar... Eu tenho todo o tempo do mundo.
Fabrício começa a balançar a cabeça negativamente dizendo:
-- Isso não está certo... Não pode estar certo... Você não vai me levar para lugar nenhum! Para lugar nenhum entendeu?! – gritou ele se levantando e apontando o dedo para a cara da mulher.
Ela, calmamente diz:
-- Me chame de Lu... Lembra-se? É uma homenagem ao meu “big boss”. – disse ela sorrindo. – Mas me diga, como você acha que pode evitar isso? – perguntou ela se sentando novamente no sofá, cruzando as pernas e olhando para Fabrício a espera de uma resposta.
Fabrício olha de um lado para outro e corre para a cozinha. Lu apenas revira os olhos esperando uma atitude patética. O rapaz volta segurando uma faca de corte bem afiada levando aos pulsos.
-- Eu me mato antes de você me levar.
Lu cai em uma contagiante gargalhada, se revirando e sentindo dores na barriga de tanto rir.
-- Não seja ridículo. – disse ela rindo novamente – O que eu quero, seu estúpido, é a sua alma, não seu corpo. Vá em frente. Apesar que acho que você não tem coragem para isso... Corte seu pulso! Se mate... Você só vai facilitar as coisas para mim.
Fabrício começa a chorar e solta a faca no chão. Ele se ajoelha.
-- Não era isso o que eu queria pra mim! Não era esse o final que eu imaginava para minha vida.
-- Quem disse que acabou, meu caro. Isso é só o começo. – disse Lu se levantando e se dirigindo ao rapaz. Ela o ajuda a se levantar. - Venha comigo. Eu vou te mostrar o caminho.
Lu o leva até o elevador. A porta se abre e ela o deixa lá dentro.
-- Você não vem? – perguntou ele aterrorizado.
-- A gente ainda vai se ver por aí... – disse ela se transformando em um homem, alto, cabelos grisalhos, penteados para trás, vestindo um terno preto, com gravata e camisa da mesma cor. – Por falar nisso, meu nome é Baltazar, muito prazer!
A porta se fecha no momento que Fabrício tenta sair. As luzes do elevador se apagam. Ele não tem para onde ir, para onde fugir. Ele aperta todos os botões, mas nada adianta. E o elevador começa a despencar e descer numa velocidade cada vez mais rápida. Fabrício grita de pavor e a queda parece nunca ter fim. Ele tenta se segurar e se prepara para o impacto que poderia vir a qualquer instante. Mas, ao invés disso, ele percebe que a velocidade está diminuindo. E, mesmo no escuro, ele percebe uma luz de tom avermelhado que atravessa as frestas da porta. Mas essa luz não dura muito tempo e tudo volta a ficar escuro e, finalmente, o elevador pára. Fabrício consegue ouvir seu coração batendo forte e sua respiração é cada vez mais forte. A porta se abre. Lá fora, não se vê absolutamente nada. O rapaz não sabe se sai ou se fica onde está. Na verdade, ele nem sabe se está vivo ou morto.
-- Tem alguém aí? – ele grita, mas sem nenhum eco de retorno.
Fabrício sente um ar gelado vindo de fora do elevador. Ele cruza os braços na tentativa de se manter quente e se encolhe no canto do elevador. O frio fica cada vez mais intenso, o que o obriga a pensar em sair dali. Mesmo sabendo que seu destino não seria outro. Ele toma coragem, mesmo com o medo tentando dominá-lo. Se levanta. Seus lábios estão roxos e seu nariz escorre por causa do ar gelado. O rapaz coloca a cabeça para fora do elevador na tentativa de ver alguma coisa. Mas não vê nada... Nem mesmo o chão, se é que havia um ali. Fabrício colocou um pé para fora, a procura de chão. Viu que era firme e, aos poucos foi deixando o elevador. Sentiu que o ar ficara mais quente. Mas voltou para o elevador ainda com medo do que poderia encontrar. O ar voltara a ficar mais frio ainda. Sem muita alternativa, ele então, decide sair de vez. A porta do elevador se fecha e agora não tem mais volta. O jeito é caminhar em direção ao que ele nem imaginava.
Passo a passo, tomando todo o cuidado para não esbarrar ou cair em algum buraco, Fabrício caminhava. Seu coração batia acelerado e cada vez mais forte. O medo era tanto que ele não conseguia pensar em mais nada. Somente andar. Certa hora, ele sente alguém ou algo passando ao seu lado. Ele tenta olhar para trás, mas é em vão. Impossível enxergar com tamanha escuridão. O rapaz continua sua caminhada. De novo, ele tem a mesma sensação.
-- Quem está aí? – gritou ele, sem parar de andar.
Ninguém respondeu.
Ele quer andar mais rápido, mas tem medo de cair. Cada passo que ele dá é calculado em sua mente. Pelo menos é o que ele pensava. Então, ele escuta uma risada. Uma risada tímida, como se fosse de uma mulher jovem.
-- Quem está aí? – gritou ele novamente.
Outra vez, nenhuma resposta. Então ele pára por um momento. É quando ele sente que alguém o empurra. O rapaz se apavora e olha para trás novamente mas nada vê. Ele começa a andar mais rápido. Já se esquecendo que poderia cair ou esbarrar em alguma coisa. Outra vez ele tem a sensação de algo passando por ele. Fabrício reduz o passo até que...
Do nada, o rapaz sente uma forte respiração bem próxima do seu ouvido. Ele se esquiva e começa a correr. Joga seus braços para frente na tentativa de não encontrar algo ou alguém. As risadas continuam e aumentam. Como se várias mulheres e crianças rissem ao mesmo tempo dele ou para ele. Sua respiração é ofegante. Medo, pavor, terror tomam conta dele. Ele sente que alguém toca sua perna. Grita de pavor e começa a correr. As risadas continuam. Mais uma vez alguém o toca.
-- Que merda é essa? O que está acontecendo? Para onde estou indo?
Agora ele só tem as risadas como resposta.
Não agüentando mais correr ele pára mais uma vez. E, de novo, alguém o empurra. Ele não anda. Quer recuperar o fôlego. Outro empurrão.
-- Não consigo respirar! Preciso de ar!
Outro empurrão. Fabrício anda alguns passos e pára novamente. As risadas surgem de todos os lados. Ele não sabe mais o que fazer. Então, algo aterrorizante lhe acontece. Alguém ou algo agarra suas pernas fazendo o cair. Ele está deitado no chão quando percebe que estava sendo puxado, pelas pernas, para completar o caminho que ele deveria fazer. Ele tenta resistir, mas é impossível. Não tem onde se segurar. Seja lá o que fosse que estava o segurando era extremamente forte. Ele era arrastado pelo chão como um boneco. A velocidade era tanta que sua camisa quase foi arrancada do seu corpo.
-- Me soltem! Me soltem pelo amor de Deus!
As risadas se intensificaram.
A sensação que ele tinha era que um carro o estava arrastando, mas, ao mesmo tempo, a sensação era de alguém o segurando pelas pernas... Talvez duas pessoas, uma em cada perna.
Depois de mais algum tempo de luta, suas pernas são libertadas. Fabrício não sabe o que fazer. Fica no chão, deitado. Não havia lugar para onde olhar. Ele se senta. Se abraça às suas pernas. Até que ele sente que não estava sozinho. Outra vez. O rapaz sente alguém tocar seu ombro. Ele se assusta e se esquiva. Mas outro toque na cabeça. Até que ele percebe que várias mãos estão em seu corpo e sua roupa é arrancada com tamanha facilidade o deixando completamente nu.
Fabrício volta a abraçar suas próprias pernas novamente. Sentia total pavor e nenhuma idéia do que fazer. Então, algo finalmente acontece. Ele percebe que uma porta, ou uma espécie de porta se abre, revelando uma forte luz brilhante do outro lado. A porta se abre completamente. Ele tenta enxergar mas é impossível. O que ele consegue ver somente é um vulto que se coloca contra luz. Então, todo o lugar onde ele estava é iluminado por uma intensa luz branca. Seus olhos se fecham de imediato, afinal ele estava no escuro. Fabrício tenta abrir aos poucos, até que suas vistas acostumem com a luz. E, aos poucos, ele vai conseguindo enxergar o que tinha ao seu redor. Criaturas, centenas delas a sua volta. Nuas, com os corpos desfigurados, como se tivessem queimados. Não tinham olhos, cabelos ou narizes. Era somente uma enorme boca que salivava algo viscoso e nojento. Todas elas expiravam ar pela boca de forma ofegante, como búfalos bravos. Eles formaram um círculo em volta de Fabrício e estavam em posição de ataque. Só aguardando a instrução de alguém. Esse alguém, só poderia ser o vulto que se encontrava parado em frente a porta e que, finalmente, começara a andar em sua direção.
-- Seja bem-vindo! – soou uma voz alta, grave do homem que se aproximava de Fabrício. – Seja bem-vindo ao inferno! Me deixe sozinho com ele! Agora a nossa conversa é particular! – ordenou ele aos seres que ali estavam que começaram a desaparecer em flash de fogo.
Fabrício, já com os olhos acostumados com a iluminação estranha do lugar, percebe em sua frente um homem alto, por volta de dois metros de altura, esguio, magro, cabelos pretos arrepiados, olhos azuis intenso, vestia-se com um terno preto, sapatos impecavelmente lustrados e uma bengala com a cabeça de um gato de prata na ponta.
-- Quem é você?
-- Não descobriu ainda, meu caro. – disse o homem andando ao redor do rapaz o medindo com os olhos da cabeça aos pés.
-- Deveria?... Por que estou nu? Que lugar é esse?
-- Quantas perguntas... – falou o homem se aproximando bem de Fabrício e o cheirando como se ele fosse um pedaço de bife exposto na vitrine de açougue.
O rapaz não se move, mas sente um terror incrível tomando conta do seu corpo.
-- Eu sou o motivo de você estar aqui agora na minha frente, meu rapaz... E essa é sua grande chance...
-- Chance do que?
O homem começa a passar a mão pelo corpo do rapaz, tocando, passando a mão por sua pele.
-- Você tem um bom físico... Não terá problemas... Vista-se! – ordenou o homem lhe entregando peças de roupa.
O homem se apóia em sua bengala enquanto observa o rapaz se vestir com um sorriso enigmático no rosto. Até que resolve falar:
-- Meu nome é Lúcifer! Mas você já deve ter ouvido me chamarem de outros nomes... Reconhece isto? – perguntou Lúcifer mostrando um pedaço de papiro.
Fabrício tenta enxergar enquanto abotoava a calça.
-- Esse documento você assinou alguns anos atrás, se lembra? Estava de tão saco cheio do seu pai que resolveu fazer um pacto, comigo, claro! Desde então, você não viu mais seu pai, não é mesmo?
Fabrício está abotoando sua camisa agora e apenas balança a cabeça negativamente.
-- Agora chegou a hora de você pagar a dívida...
-- Como?
-- Você será meu instrumento, rapaz!
Fabrício começou a não sentir mais medo. Uma onda de confiança foi lhe tomando conta e, então ele resolveu enfrentar Lúcifer.
-- Instrumento? Sei... E se eu me recusar?
-- Acho que você não entendeu, não é mesmo?
Fabrício veste seu paletó. Agora ele se dava conta que o terno que vestira era de excelente qualidade.
-- Não, não entendi... Afinal ninguém aqui nesse lugar parece falar diretamente... Só por mensagens!
Lúcifer esboça um sorriso no canto da boca.
-- O que foi? Está tomando coragem?
-- De repente estou começando achar isso tudo um circo armado... Ridículo!
-- Eu vou te mostrar uma coisa, meu rapaz! Quer saber como seu pai está?
Fabrício, nesta hora sente um frio lhe correndo a espinha.
-- Meu... pai?
Lúcifer sorri. Gargalha. Anda de um lado para outro rodando sua bengala na mão.
-- É... o seu pai! Aquele que você “pediu” para que fosse dado um fim... Ele está levando um belo castigo pelo que fez com você... Com sua mãe... Enfim... Sua família. Aliás, até hoje ele pergunta porque ele está passando por aquilo. Engraçado, não é mesmo? As pessoas as vezes não se dão conta, ou fingem que não sabem o que está acontecendo nem o porque está acontecendo. Tão típico do ser humano.
Fabrício sente seu estômago embrulhar.
-- O negócio é o seguinte meu rapaz. Ou você faz o que estou lhe ordenando, ou vai terminar como seu pai. Assim! – disse ele apontando sua bengala para parede que se abre como uma enorme vitrine. Nela, a cena que nunca mais sairia da cabeça de Fabrício.
Seu pai estava crucificado e, as mesmas criaturas que o receberam se revezavam para tirar pedaços de sua pele. Outro arrancavam-lhe as unhas dos pés. Outra criatura escalava o corpo para perfurar os olhos. O homem urrava de dor. Mas a medida que os pedaços da pele, as unhas e os olhos eram machucados, imediatamente se regeneravam.
-- E tem sido assim ao longo desses dezessete anos... É isso que você quer para você também? Junto dele? – perguntou Lúcifer dando um sinal com sua bengala, fazendo com que as criaturas se afastassem do homem e deixando que todas as partes do corpo machucados fossem regenerados. – Olha quem veio te visitar!
O pai de Fabrício, exausto olha para frente e vê seu filho que não continha as lágrimas. O homem começou a chorar.
-- Fi... Filho!
-- Aqui está a resposta da pergunta que você vem nos fazendo há anos...
O homem olhou para Fabrício com ar de indagação.
-- Vo... você... Você é o responsável... – sua expressão muda na hora. Um ódio toma conta dele e o faz explodir. – Então foi você, não é seu viadinho?!
Fabrício se espanta e corta o choro imediatamente.
-- Mesmo assim... E não mudou nada!
-- Você acabou com a minha vida, seu ingrato! Eu lhe dei tudo! E você me tirou a vida sem a menor dó!
-- Quer saber... Estou achando pouco! Você deveria pagar muito mais!
-- Como é que é?
Fabrício olha para Lúcifer que já mostra um sorriso largo em seu rosto.
-- Devemos continuar o castigo... Ou você prefere tomar o lugar dele?
-- O que eu tenho que fazer? – perguntou Fabrício se recompondo.
-- Ótimo! Sabia que não iria falhar. – disse Lúcifer acenando novamente com sua bengala e as criaturas retomando o castigo ao pai de Fabrício. As paredes se fecham. Lúcifer conduz Fabrício até a porta por onde ele, Lúcifer, havia entrado.