Capítulo 2 – A Salvação de um fraco
Havia dois anos, mas a lua-de-mel parecia não ter acabado entre Victor e Amanda. O perfeito casal, apaixonados, cúmplices. Nada parecia abater a forte estrutura que os mantinham como um verdadeiro casal.
A rotina era sempre a mesma. Todas as manhãs, Victor se levantava, dava um beijo na testa de Amanda que esticava o sono enquanto o marido tomava banho. Os dois tomavam o café da manhã juntos. Ele já pronto para ir trabalhar, ela ainda com o seu roupão, pois entrava mais tarde no trabalho. Eles moravam em uma grande casa em um condomínio fechado nos arredores de São Paulo. Amanda acompanhava o marido até a porta, dava-lhe um beijo de despedida e esperava que ele saísse com o carro acenando mais um “tchau” com a mão.
Victor era uma pessoa séria. Levava tudo o que fazia a sério. No trabalho era respeitado e até temido por alguns de seus colegas. Mas ele nunca precisou levantar a voz para ninguém. Sabia dar ordens, cobrar ou até mesmo dar uma bronca sem alterar seu tom. Sempre comedido. Sua paixão pela esposa era admirada pelos seus colegas de trabalho. Alguns acompanharam a cerimônia que foi emocionante tanto para o casal para quem assistia.
Ao final do expediente, costumava parar em uma padaria com seu colega Olavo, e comer uma coxinha, um pão de queijo e um suco de laranja. Depois de passar esse tempo jogando conversa fora, ele voltava para casa e se dedicava integralmente à sua esposa, Amanda. Ele sempre chegava com uma garrafa de vinho que era degustada durante o jantar que ela sempre preparava. Comiam, bebiam, e terminavam a noite fazendo amor. E no dia seguinte, tudo se repetia.
Amanda é professora em uma pré-escola. Leciona aulas todos os dias das dez da manhã até as cinco da tarde. Por isso ela sempre deixava para se arrumar mais tarde do que Victor que saia sempre bem mais cedo. Mas, ao contrário de Victor, Amanda não se sentia uma mulher completa e feliz. Fazia tudo aquilo para agradar o marido porque tinha virado uma rotina a qual ela não poderia mudar. Ainda mais nos últimos seis meses quando sua rotina havia mudado.
Para Victor, assim que ele saía de casa, Amanda voltava para cama, dormia mais um pouco, levantava uma hora mais tarde, tomava banho e seguia para o trabalho. Não era bem isso o que acontecia nos últimos meses.
De fato, Amanda se despedia de Victor e corria para o quarto. Tomava um banho, se arrumava, usava seu melhor perfume, vestia sua melhor lingerie, arrumava sua cama e esperava ansiosa olhando para o relógio. Exatos trinta minutos passados a campanhia tocava. Amanda corria para a porta e ao abrir, se deparava com um homem alto, grisalho, realmente bonito e elegante. Ela sorria e o puxava para dentro de casa, se certificando antes se alguém estava por perto. Ele era seu vizinho, Arthur. Também casado, com uma filha e dono de um importante cargo em uma empresa de consultoria. Amanda se sentia mulher nos braços de Arthur. Se sentia desejada, amada. Não que Victor também lhe proporcionasse isso, mas era diferente. A sensação era completamente diferente.
O encontro dos dois amantes durava exatos sessenta minutos. Pois ele teria que correr para o escritório e ela teria um longo caminho para seguir até a escola. Mas, Amanda ia sempre trabalhar feliz. E ela nunca dividiu esse segredo com quem quer que seja. Nem mesmo com suas colegas de trabalho, com suas irmãs ou com a sua mãe. O que Amanda não esperava era que tudo isso um dia iria acabar.
Certo dia, todo o tradicional ritual se iniciou. Victor levanta-se, dando um beijo na testa de Amanda, seguindo para o chuveiro, tomando o café da manhã juntos, conversando sobre amenidades e deixando a esposa com um beijo de despedida. Somente um detalhe ficou para trás que iria marcar aquele dia para sempre. Victor havia esquecido seu pendrive em cima da mesa. Nem ele nem Amanda havia notado o esquecimento. Ela correu para tomar seu banho e esperar a chegada de Arthur.
Na estrada para a cidade, Victor está ouvindo uma rádio de músicas calmas, pensando no roteiro que teria que fazer durante o dia. Até que lhe veio a mente o pendrive. “Droga, como posso ter esquecido!”, pensou ele. Mas o próximo retorno seria mais ou menos uns quinze minutos. Ela acelerou para poder chegar mais rápido.
Enquanto isso, Arthur descia do carro, que estacionava um pouco à frente da casa de Amanda e seguia a pé a passos largos. Ele tocava a campanhia como de costume. Ela o puxava para dentro e começaram a se despir logo na sala. Suas roupas foram espalhadas por todo o lugar. Nús, Arthur pegou Amanda em seu colo e a levou para seu quarto a jogando na cama e começando a amá-la como sempre fazia.
Victor conseguiu pegar o retorno e já se adiantou pegando um atalho para encurtar o caminho para sua casa.
O casal de amantes estava ofegante em cima da cama. Arthur por cima de Amanda que dizia seu nome em um sussurro misturado com prazer. Ele suava deixando as gotas de suor cair sobre sua amante.
O marido traído, sem saber do que poderia esperar em sua casa, se aproxima de sua residência, olhando para o relógio preocupado. Ele, enfim, chega, estacionando o carro.
Dentro de casa, Arthur e Amanda estão dentro do banheiro tomando um banho relaxante após se amarem loucamente. Eles não escutam o carro se aproximando nem a porta batendo.
Victor entra na casa e já se depara com roupas espalhadas pelo chão. Ele pára por um instante. Tenta entender o que está havendo. Será que entrou na casa errada? Pensou ele por um instante. Mas a risada inconfundível que vinha do andar de cima da casa era de Amanda. Não tinha como negar. Victor então começa a andar em direção à escada. Passa pelo hobby que Amanda vestia antes dele sair de casa. Um sapato social masculinho, paletó, camisa, roupas que, definitivamente não eram dele. Victor sobe as escadas lentamente. Escuta o chuveiro ligado e o som abafado de Amanda e do homem que estava com ela. O marido traído se aproxima do banheiro e, agora, começa ouvir claramente o que eles diziam:
-- Foi o melhor sexo da minha vida! – dizia Amanda.
-- Mesmo? Melhor do que do Victor?
-- Já falei para não falar dele enquanto estamos juntos...
-- Você não tem medo?
-- Victor é metódico demais... Tem horário para tudo.
-- Não pensa em largá-lo?
-- Para ficar com você? Nem pensar! Victor é um ótimo marido! Amo ele de paixão! Mas me falta algo... E achei em você. Você também é casado, não se esqueça... E tenho certeza de que não largaria sua mulher para ficar comigo.
-- Você é bem confiante, né? Isso que gosto em você.
Eles se beijam.
Victor sente uma pontada no coração. Como se uma faca estivesse o perfurando. Ele se afasta. Desce as escadas. Pega seu pendrive e entra no carro saindo dali o mais rápido possível.
Arthur deixa a casa de Amanda, se certificando de que ninguém o estaria olhando. Ela fecha a porta e começa a se vestir para o trabalho.
Momentos mais tarde, Victor chega em seu escritório. Estava apático. Pálido. Seus olhos estavam sem vida. Era como se sua alma tivesse sido arrancada. Caminhando pelos corredores até sua sala, ele não respondia nenhum dos “bom dia” que seus colegas lhe diziam. Entrou em sua sala, fechou a porta, sentou-se em sua cadeira e lá ficou, atônito. Em sua cabeça passou toda sua vida, desde quando conheceu Amanda, o que o fez apaixonar-se por ela. Como escolheram a casa, como escolheram os móveis. “Sou metódico?! É isso que ela pensa de mim?”. Ele não sabia mais o que pensar. Sua cabeça doía. Ele sentia seu coração pulsar na garganta. O mundo, a vida, tudo que ele havia investido não fazia mais o menor sentido. Seus pensamentos foram interrompidos pela entrada de um de seus colegas. Silvério era o que mais temia Victor dentro daquela empresa. Victor, sabendo disso, não gostava muito dele.
-- O que você quer? – perguntou Victor, ríspido.
-- Estão esperando...
-- Feche a porta e sente-se.
-- Como?
-- É surdo?
Silvério baixou a cabeça, fechou a porta e se sentou, tenso, na frente de Victor que olhava para o nada.
-- Por que esse medo? Por que você tem medo? Por que você me teme?
-- Eu... Eu...
-- Você acha que vai conseguir crescer na vida se passar o tempo todo temendo alguém? Temendo algo?
-- Não... não, senhor...
-- Você é casado?
-- Não... sou noivo.
-- Noivo? – Victor pergunta caindo na gargalhada. – E você tem certeza de que quer se casar?
-- Sim... claro, que eu tenho?
-- Primeira resposta firme que você me dá... Isso quer dizer que você realmente à ama, não é mesmo?
-- Sim... A amo muito.
-- Bom para você.
O celular de Victor toca. No visor aparece o nome de Amanda. Ele sorri e mostra o telefone para Silvério.
-- Sabe quem é que está ligando?
-- Não, senhor... Não sei...
-- A vagabunda da minha mulher.
Silvério arregala os olhos assustado com a linguagem que nunca ouvira Victor falar.
-- Peguei essa puta me traindo! – disse ele alterando, pela primeira vez, seu tom de voz, e jogando o celular contra a parede que se desfaz como papel.
Silvério se encolhe com medo da reação repentina de Victor que suspira, leva a mão a testa e o tranqüiliza:
-- Não precisa se assustar. Só estou... desabafando.
-- Entendo... entendo... – disse Silvério nervoso. Ele sentia todos os nervos do seu corpo tremerem.
-- Me deixe sozinho, vai... Não estou para ninguém...
-- Mas...
-- Não estou para ninguém, Silvério.
-- Sim, senhor.
Ele deixa Victor que gira sua cadeira de um lado para outro. Como se estivesse tentando achar um rumo. Ele se levanta e deixa o escritório sem falar com ninguém.
Já se passava de meia-noite. Amanda está sentada na mesa da cozinha a espera de Victor que não dera nenhum sinal. No escritório, ninguém sabia lhe informar sobre ele. Seu celular somente caixa postal. O jantar já havia esfriado há muito. Ela foi até a porta da frente, olhava para ver se via algo, mas nada. Começou a ficar preocupada. Amanda pega seu celular e liga para Arthur.
-- Eu sei que não devia estar te ligando... Ainda mais essa hora. Mas Victor sumiu. Já é meia-noite e meia e ele ainda não apareceu. Não está no escritório, seu celular só dá caixa-postal... Não, se eu chamar a polícia não irão fazer nada... São quarenta e oito horas para poderem fazer alguma coisa... – ela escuta, enfim o carro parar na garagem. – Ele chegou!... Espero você amanhã... Beijos!
Amanda desliga o celular e corre para a porta. Victor chega com um aspecto terrível. Descabelado, gravata solta e um forte cheiro de uísque.
-- Onde você esteve? Estava preocupada? O que aconteceu com seu celular?
Ele não responde. Apenas entra, joga sua pasta em cima do sofá e respira fundo.
-- O que foi Victor? Aconteceu alguma coisa? Você foi assaltado? Você está bem?
Victor continua sem responder. Ele se senta no sofá e liga a televisão.
-- Victor, que palhaçada é essa? Estou falando com você? Você está bêbado? Drogado? Alguém fez isso com você?
Ela respira fundo.
-- Eu guardei seu prato no forno. – disse ela dando mais uma suspirada e se levanta em direção a cozinha. – Você não quer falar mesmo?
Quando ela se virou, foi surpreendida com um golpe dado por Victor que a fez cair no chão com a boca sangrando.
-- Quanto tempo, hein? – perguntou ele finalmente. – Há quanto tempo você está me traindo sua vagabunda?!
Amanda arregala os olhos, assustada e sentindo dor.
-- Victor... – ela disse com dificuldade.
Ele, então, a puxa pelo cabelo e faz se sentar na cadeira.
-- Me responde, sua vagabunda! Por quê? O que eu fiz de errado!
Ela começa a chorar. Ele se aproxima e lhe dá outro tapa que a faz cair da cadeira. De novo, Victor a levanta a puxando pelos cabelos e a coloca sentada novamente.
-- Victor... Meu amor... Eu....
-- Não me chame de meu amor! – disse ele se sentando na frente dela e tirando uma arma do bolso a colocando em cima da mesa.
Amanda olha assustada para aquela arma.
-- Victor... Victor, o que você... Victor, vamos conversar! Somos adultos...
-- Adultos? – perguntou ele rindo – Você destruiu o meu mundo... Meus sonhos... Eu achei que tinha uma mulher que me amava... Não uma mulher que trepa como o meu vizinho! – ele leva as mãos ao rosto, como se estivesse tentando acordar de um pesadelo. Amanda olha para arma, pensando na hipótese de tentar pegá-la. Mas Victor volta sua atenção para arma e começa a girá-lo em cima da mesa. - Nunca imaginei que pudesse acontecer isso comigo, sabia? Nunca imaginei que pudesse chegar em casa e ver minha mulher agarrada com o meu vizinho! Meu vizinho! – as lágrimas dele corriam pelo rosto. Ela também chorava, mas sentia mais medo pelo que pudesse vir a acontecer. – Tudo que eu sonhei, tudo que eu planejei... Tudo destruído em minutos.
-- Victor... Por favor, Victor! Vamos conversar com calma... Para que essa arma?
-- Cala essa boca! – gritou ele dando-lhe mais um tapa. Dessa vez, ela não caiu no chão. - Eu devia matá-lo também!
-- Também? Victor... O que você está pensando em fazer?!
-- Por quanto tempo você ia levar essa história?
-- Victor...
-- Responde! Fale a verdade pelo menos uma vez, vai?!
-- Eu... eu não sei...
Ele ri.
-- Sabe sim... Claro que você sabe! Você estava acomodada com essa situação. Um marido que ama, e um amante que lhe fodia! Não é isso? Não é isso, sua vadia depravada!
Ela chora.
-- Ele então te dá o melhor sexo da sua vida, não é isso?
-- Você... você?
-- Sim... Eu vi... Estava aqui hoje de manhã e vi os dois no chuveiro.
-- Victor... Me desculpe... Eu não queria....
-- Claro que você não queria... – disse ele pegando a arma e levando o dedo ao gatilho. – Sabe que isso tudo me fez pensar o dia inteiro? Que eu não tenho absolutamente mais nada a perder nessa vida. Mesmo porque, eu não tenho mais vida... Eu não tenho mais nada! Você conseguiu destruir tudo o que eu tinha. – ele aponta a arma para Amanda que tinha o sangue já secando no canto de sua boca e um grande hematoma se formando em volta dos olhos e em torno de seus lábios.
-- Victor... Por favor... Não vá fazer nenhuma besteira. Eu saio de casa... Agora mesmo. Arrumo minhas coisas e vou embora.
-- Simples, não é? E eu? Como eu fico?
Ele se levanta. Aponta a arma para Amanda.
O silêncio da noite no condomínio foi quebrado com um som de um tiro. Menos de um minuto depois outro tiro.
Victor estava sentado na cadeira. Ele tinha respiração ofegante. Estava em estado de choque ao ver o corpo de sua mulher caído no chão.
-- O que eu fiz? O Que eu fiz?! – se perguntava.
Ele nem percebe a aproximação de um homem que coloca a mão em seu ombro fazendo o se assustar. Victor se levanta de salto, tropeça na arma que estava no chão e cai.
-- Quem é você? – perguntou ele.
-- Não se preocupe... Sou um amigo. Vim te ajudar...
-- Me ajudar?
-- Sei que o que fez não foi por querer. Você estava cego... Cego de raiva, de ódio... Cólera! Esse tipo de sentimento nos faz ficar assim. Não vemos nada. Só queremos uma coisa. Vingança.
O homem puxa uma cadeira e se senta. Ele empurra outra e sinaliza para que Victor se sente. O corpo de Amanda continuava ali, no chão. O marido traído se levanta com dificuldade.
-- Sente-se meu rapaz. Quero te ajudar.
Victor se senta e respira fundo.
-- Me ajudar como?
-- Eu preciso de você... Se você vir comigo, vou te explicar tudo. Mas você tem que me prometer uma coisa antes.
De cabeça baixa, desolado, Victor responde:
-- Prometer o que?
-- Você não é mais o Victor de antes...
-- Isso não sou desde essa manhã.
-- Você não vai esquecer de toda sua vida... Seu trabalho, sua mulher, sua casa... Esqueça tudo. Vindo comigo você vai ter um novo propósito. Uma nova vida. Uma nova missão.
-- A polícia daqui a pouco está aqui...
-- Não se preocupe com isso... Concentre-se em mim, agora. No que eu estou te falando. É a sua chance de mostrar que você é mais forte do que você se mostrou aqui. Tudo isso poderia ter sido solucionado de uma outra forma. Mas você preferiu um jeito, digamos, mais difícil. Tenho certeza de que você não quer carregar esse fardo para o resto da sua vida, não é mesmo?
Victor não responde. Está confuso.
-- Então... Está comigo? Como disse, eu preciso de você.
-- Mas eu nem sei quem é você?
-- Está comigo ou não está? – insistiu o homem estendendo a mão para um possível acordo.
Victor olha para a mulher no chão. Olha para o homem e estende a mão.
-- Está bem... Estou com você.
-- Ótimo – disse o homem se levantando e dando a mão para Victor. – Venha comigo.
-- Mas...
-- Não se preocupe. Tudo vai ficar bem.
O homem abre a porta da casa para que Victor saia primeiro.
-- A propósito: Meu nome é Gabriel.
Amanda solta um suspiro e um grito. Ela sente dor. Tenta se levantar. Percebe que seu ombro sangra muito. Ela se apóia na mesa para se levantar. Tenta chegar perto do telefone para chamar a polícia quando se depara com o corpo de Victor estirado no chão com um tiro na cabeça.